Caneta no papel – um blogue, um diário. Foi assim que comecei a minha “carreira” de blogueira uns oito anos atrás. Escrevo sem saber quando, como e aonde vou conseguir publicar isto.

A consolação de não ter internet é que passo mais tempo a observar, fixar e acumular imagens, quadros. Lembro de ter uma memória muito melhor nas meus primeiros anos de blogar. Lichinga, capital do Niassa, parece não ter mudado tanto como certos bairros privilegiados em Maputo, aonde a taxa de construção chocou-me bastante a semana passada. Porém, parece que há obras em bastantes prédios antigos e públicos. Pode ser minha imaginação, mas parece haver mais trânsito – carros de passageiros, motas de todo tipo.

 

A primeira impressão que uma pessoa tem a chegar do ar é a dimensão das áreas plantadas com pinheiros – é um quadro visível do ar – também um viveiro grande só uns kilómetros da cidade. Os pinhais fazem um padrão, parecem legiões de sinais disciplinados na pele da terra. (Volto a questão dos pinheiros mais tarde.)

A aterragem é brusca. O aeroporto de Lichinga é uma joia colonial que tem sido bem mantido – a veranda do café de cima – foi absolutamente cheia de gente para a chegada do avião que é das maiores eventos sociais do fim de semana aqui. Crianças sentadas em cima do muro da veranda com os pés soltos apontando para o avião. Recolhe de bagagem mais rápido de sempre, e cartazes do Guebuza grafados nos pinheiros no parque de estacionamento na altura imprescionante de 3 metros.

Estou na Padaria Mária, coração social da cidade de cimento de Lichinga, que foi o primeiro lugar a instalar rede sem fios, e que, pelos vistos há uns meses desistiu de fazer este serviço público. Os filhos das elites locais vem comer uma pizzar num domingo a tarde, enquanto os miúdos descalços bricam fora pedindo trocos dos clientes quando entram e saem. Mas os constrastes são mitigados pelo comércio de pão, que atrae todos que tenham moedas no bolso. Parece que os portugueses deixaram o gosto pelo pão pelo mundo inteiro. A bomba de gasolina e diesel lá fora não para de encher tanques, há uma confusão de motas, bicicletistas a quererem encher jerrycans, carros, e camionetas agressivas a competir.

Vejo montes de bicletas “fixies” – agora tão de moda em Londres – aquelas que não tem mudanças. Aqui pessoas pedalam nestas por necessidade, as vezes dando boleia a parceiras ou amigos.

A rua principal também é palco para um desfile lindo de capulanas – panos impressos antigamente com cera, tipo batik. “Amarrar capulana” é das coisas mais essencialmente femininas aqui. E as capulanas daqui vêm directamente da fonte, da Tanzânia. No paladar de cores predominam verdes, roxos, azuis, marrom – cores lindíssimas.