Ando a pé em Lichinga por toda a cidade de cimento. Que realmente é muito pequena. A cidade foi um sonho cartesiano, só acabada aos finais dos anos 60. O colonizador construiu para ficar. A casa aonde eu trabalho é super sólida, e a planta continua relevante hoje em dia. Cozinha e casa de banho continuam adequadas depois de pequenas melhorias. Parece que pode durar centenas de anos.

(As vezes tento imaginar tudo que foi vivido nesta casa.)

O elemento mais majestral, digamos, deste Lichinga, e o gabinete do governador e a rotunda na sua frente.

A repartição do Governador é uma construção maravilhosa – nem sei descrevé-la como deve ser. Parece scenario dum filme de Hitchcock. Carros, incluindo o novíssimo Mercedes branco do Governador, estacionam em baixo da construção branca e angular. A rotunda está vedeada actualmente para obras com grandes chapas de zinco.

Dizem que vão colocar uma estátua de Samora Machel lá. A única fora de Maputo. A província foi especial por ele por vários motivos. Muitos com aquela nostalgia por tempos mais ideológicos especulam que Niassa teria sido outra província se Machel tivesse sobrevivido.

No lado oposto da rotunda da repartição do Governador é a maior mesquita da Cidade. É pintado um tipo azul-turquoise, com todo o respeito, uma cor que associo com casa de banho. Com seus altofalantes, as mesquitas marcam o tempo na cidade mais que as igrejas. Uma pessoa vai incorporando a chamada a oração das 4h no sono.

As ruas e calçadas são protegidas pela sombra de acácias, pinheiros e jacarandás antigos. A poeira vermelha penetra tudo, e torna os sapatos brancos, que são irracionalmente populares, a cor de oxidação.

Aonde o asfalto acaba, começa a maior parte da cidade, os bairros populares. Vi uma estimativa de 100,000 habitantes em Lichinga. Duvido que a cidade sonho-cartesiano conta por mais de 10,000. A falta de animais assinala isso para mim – a cidade centro quase não tem cães, nem galos.

Os bairros populares têm crescido numa taxa incrível nos últimos dez anos. (Seria bom conferir o crescimento com fotografias de satélite.) Recebem todo tipo de pessoa vinda das aldeias mais afastadas. Há muitas viúvas seropositivas que foram rejeitadas pelas suas famílias na cidade a se desenrascarem.

Todas as histórias da vida da cidade vêm destes bairros. Também a paranoia de crime – muitas histórias de ladrões e assaltantes violentos, que dão catanadas ao vítimas.

Esta dinâmica de centro-de-comércio e periferia-residencial não me é estranho. Mas o que estranho é a falta de transportes públicos na cidade. Não há uma única chapa (minibus) para transportar pessoas das suas casas para o centro. O modos de transporte são: pé, bicicleta (com boleias para senhores e amigos), motas, camionetas, e carros. A noite, as pessoas têm medo de andar a pé para casa, e muitas vezes são obrigadas pagar taxis super caros para suas casas. Disseram-me que um empresário atrevido tentou iniciar um serviço de minibus mas que não houve adesão.