Saimos no Domingo não tão cedo, depois de esperar numa fila na única bomba na cidade a funcionar com o corte eléctrico. A sensação de sair da cidade é sempre boa. O céu abre. Verdes ainda fracos ou leves ainda antes das maiores chuvas, marrons-oxidados do barro, amarelho do novo caipim, muros cinzento nas casas mais arrumadas. A paisagem ao norte de Lichinga é pontuada com pequenos montes e colinas, e aldeias de falantes de Ayao.

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Uma coisa que notei foi a quantidade de caipim novo nos tetos das casas e nas vedações ao redor das casas. Logo antes da chuva começar, as mulheres vão cortar caipim para fazer estes arranjos, e os homens são carregados com as obras.

Gosto muito da viagem para Metangula, que é o único município no lado Moçambicano do Lago. A estrada sai do distrito de Lichinga, passa pelo distrito de Sanga, virando para a direcção do Lago. Gostava muito ver em particular uma bela floresta nativa logo depois da fronteira entre Sanga e Lago. Havia acácias, Massukos (árvores de frutos), com altura de 15m pelo menos. Muitas canções de pássaros. Enfim, representava a minha ideia de como era a província antes de muito desmatamento para agricultura e lenha. A foto em baixo é de Google Earth, imagem de 2006.

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Só que esta vez, ao meu espanto e horror, vi que tinha sido derrubada e destruida. Devastada. Vi uma plataform da empresa que cometeu o crime: chama-se “Chikweti” (que quer dizer “Riqueza”). Chikweti pretende plantar linhas e linhas de pinheiros encima da defuncta floresta nativa. Para depois produzir polpa para papel. Já deu para ver os viveiros a sair do chão, a sair dos rastos de destruição da floresta nativa. (Há poucas coisas no mundo natural tão medonhas como uma floresta chacinada.)

Vimos viverios plantados do Chikweti até muito perto de Metangula, invadindo outra floresta nativa mais perto do Lago. A extensão destas plantações é vasta. E a “consulta” às comunidades foi feito com seus régulos, líderes tradicionais, que motivados por interesse pessoal ou familiar, aceitaram as prenditas da empresa e cederam vastos terrenos. Os próprios técnicos do governo relatam que não tinham como reagir, que estas decisões “vieram de cima”.

Na província, tanto o governo como cooperação sueca têm promovido plantações de árvores no âmbito de “reflorestamento.” O governo nos seus documentos de planificação de longo prazo fala de 2 milhões de héctares de plantações de pinheiro e eucalipto. Querem tornar a província no maior productor do mundo.

O caso de Chikweti parece que transgrede todo tipo de limites sociais e ambientais. Em privado, elementos do governo e os Suecos também demostram seu horror com a acção do Chikweti. Recentamente a ONG nacional ORAM fez um estudo sobre as florestas da província e destacou este caso como dos piores e mais flagrantes abusos.

Foi realmente dificil ver esta situação. Tenho acompanhado a situação da plantações industriais de árvores em outras partes da província. Vi familias retiradas das suas machambas contra sua vontade. Vi muitas comunidades com os mesmos problemas de “consulta” – uma visita ao régulo pelos representantes das companhias e, zás – usufructo da terra transferido. Mas confesso que a devastação ambiental foi um abalo mais forte.

Ainda bem que iamos ao rumo do Lago. A província de Niassa, caraterizado por um grande planalto e vasto território pouco habitado por homens, tem como nome “Lago”. Os que vivem perto do Lago falam Nyanja, que é basicamente a mesma lingua falada em Maluaí no outro lado. Por conta de missionários colonais incansáveis, eles também são Anglicanos. Os contactos hoje em dia entre as pessoas que vivem a beira lago e o resto da população parecem fracos.

Tinhamos conosco um senhor duma comunidade Ayao perto de Lichinga que nunca tinha ido ao Lago. Tinha visto nas suas viagens para Maláui. Já fui várias vezes ao Lago com pessoas que nunca tinham ido.

Na descida a Metangula, o Lago ocupa a visão toda. Parece um mar. Nas minhas viagens para o Lago, nunca vi Malaui no outro lado. Metangula é um lugar quente para o pessoal do planalto. Há embondeiros, árvores que pelos vistos impactam mais aos de fora do que pessoas da terra.

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Havia montes de mangas à venda, suficiente para entusiasmar – e bastante! – aos meus colegas. Fomos comprar cerveja para a praia. A seleção já mostra o comércio em Metangula é misto entre Moçambique e Malaui. Continuamos, agora à beira Lago, na estrada para Chuanga, a praia a 4km da cidade, que foi melhorado nos últimos meses para permitir um carro normal passar. O barzinho e restaurante na praia continua numa decadência total. Tentámos negociar peixe grelhado e “bolos” de shima.

Os meus colegas parecem crianças quando chegam a praia. A boiar, mergulhar, mexer na água. Gratos pela existência do Lago. Foi a primeira vez com eles que senti uma alegria tão simples. Um dos colegas contou como tentou convecer a mulher ir ao Lago nas suas breves visitas para Lichinga (ela vive no sul da provincia). Ele queria poder partilhar esta alegria.