[Uma tradução defeituosa, mas lá está.]

Não podia ter imaginado duas primeiras semanas mais surreais e em contraste aqui em Maputo. (Como parentese, nunca me imaginei a viver aqui, tendo viajado frequentamente por aqui ao caminho de Niassa.)

A primeira semana, depois dum convite a última hora, encontrei-me numa conferência académica sobre a vida do fundador Samora Machel. Foi essencialmente um club de homens – houve uma palestrante mulher o dia inteiro.

O destaque do dia foi anunciado incluir Museveni (não apareceu), Kenneth Kaunda (fundador Zambiano) e Mugabe.

Estes últimos passaram por muito perto enquanto esperavamos em frente do centro de conferências. Quando fomos entrar no centro de conferências, como eu não tinha crachá, esperei uma auto-da-fé para poder entrar. Aproximei-me aos polícias, que ficavam atrás daqueles máquinas de scan dos aeroportos, e com bastante indiferência, sinalaram que podia entrar. Eu estava confusa – passar pelo detector de metais? Assinalei com as mãos. Não, entre directo! disseram. Então entrei num lugar cheio de chefes de estado e ministros com uma mochila gigante que podia ter dentro tomates podres – ou pior.

Kenneth Kaunda falou primeiros, sem apontanmentos preparados, criticando o Malema a dizer, “Dois erros não fazem justiça” mas depois a chamar ao Mugabe (no outro lado da mesa) “um anjo”. Kaunda falava baixinho e tinha um ar de avó. Então chegou a vez do Mugabe. Tinha um segurança/assistente vestido em fardo military, trazer o que parecia um discurso enorme. Ficou firmamente em pé, a adoptar uma pose bem “professor”.

Começou bem, devo dizer, aderindo melhor ao tema do que KK. Ele descreveu como conheceu o Samora, e como as coisas desenvolveram no grupo Frontline. Parecia lúcido, em controle, e atrevo dizer, statesmenlike.

Depois, passados 20 minutos, ele começou a mexer distraidamente aos papeis. Foi um pouco como ver um comboio a abanar nos carris antes de saltar. Ele descartou o discurso escrito, ao delírio do público.

O que seguiu só pode ser descrito como “A Zona Crepúscula” pos-libertação. (A Zona Crepúscula era um show de televisão norte americana dos tempos do meu pai, o primeiro do tipo, feito com histórias medonhas de terror e de mistério, feito para impressionar e assustar.) Mugabe animou o público a denunciar o imperialismo da OTAN e a defender “o direito a vida” da família Gaddafi. Não foi assim tão incrível o que ele estava a dizer, mas incrível sim a reacção idolatra do público. Um público cheio de VIPs do Partido, incluindo o Presidente. Mas também cheio de estudantes.

Estes jovens pareciam pouco incomodados com a ideia duma geração de líderes que só larga poder a “cair da cadeira”. Não pareciam perturbados com a tamanha hipocrisia e cinicismo, o que eram literalmente audível na sua voz.

Isto era um progama de televisão, a preto e branco, feito para assustar e entreter.

Em grande contraste com este momento, vi a semana passada o Hans Rosling, um médico que virou um guru da visualização de dados e um “top thinker” global. Rosling não lutou em nenhuma guerra de libertação, mas dedicou a vida a contribuir à capacidade de investigação médica africana.

Ele deu uma apresentação pessoal cheio de humor à Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane — também provocador, mas numa maneira completamente inovadora e original. Num português natural e charmoso.

Rosling, como Mugabe, entrou em contacto com a luta de libertação moçambicana cedo, ao final dos anos 60. Ele contou a história de como ele, como um aluno de medicina aos 19 em Uppsala, Suécia, ele conheceu ao Eduardo Mondlane. Rosling era suposto juntar uma comitiva de estudantes para receber o revolucionário africano, mas só era capaz de interessar 8 pessoas.

O jovem Rosling queria ouvir histórias da luta armada e como contribuir para tal, mas ele disse que Mondlane preferiu sublinhar a importância do pós-libertação. Não tinha mínima dúvida que Moçambique ia libertar-se (e ao Portugal no processo) — mas que o depois seria a parte mais difícil.

Rosling nunca esqueceu-se disso, e depois de acabar seus estudos, ele voluntariou-se para servir como Oficial Distrital de Medicina em Nacala.

Foi a sua comparação entre seu districto na Suécia — aproximadamente a mesma população e território — com Nacala que ressoou. Ele chegou e occureu-lhe que “Agora eu tenho de fazer o trabalho de 300 médicos”.

Dois zeros separaram o número de pacientes por médico entre Suécia e Moçambique “cem vezes o trabalho com um porcento dos recursos. Passei a minha vida inteira a tentar entender estes zeros”.

Rosling estava prestes a arrancar com a sua apresentação da ferramenta louvada Gapminder para demostrar como Moçambique estava a reduzir mortalidade infantil quando a electricidade caiu.

No escuridão na fileira da frente estavam o Reitor da Faculdade, o Diretor da Faculdade, e a Embaixadora Sueca. (Pergunto-me como a Faculdade preservava as suas funções essenciais como refrigeração em alturas destas.)

De repente estavamos só illuminados com a luz baixa dos laptops (o dele e o meu).

Rosling não ficou parado, não perdeu o ritmo, encarando a situação como natural. Começou a contar a sua história de investigar um surto de doença paralítica em 1981 com seus colegas moçambicanos, o que levou a descoberta da doença konzo. Ele também usou a oportunidade para mencionar como electricidade pode salvar vidas, a dizer “Só quem tenha atendido uma família numa palhota com criança a sofrer diarrea no meio da noite sabe a diferença que electricidade pode fazer”.

Esta palestra também podia ter saltado dos carris, como o Rosling veio desafiar aos alunos pensar em termos struturais e no longo prazo. E para isso ele precisava de eletricidade para usar a sua ferramenta dinámica Gapminder.

A luz voltou no momento certo. Rosling começou a mostrar os trajetórias de desenvolvimento de muitos países, desfazendo o mito persistente que há países “em vias de desenvolvimento” e “desenvolvidos”. (Vale a pena ver as palestras dele no Youtube.)

O que fascinou-me mais foi a insistência de Rosling que o mundo de amanhã (não o mundo ’emergente’, mas simplesmente o mundo) será os 8 bilhões de pessoas a viver em África e Ásia. E que a Europa e América do Norte constituirão somente 1 bilhão dum total de 9 bilhões – vão ser “o velho occidente”. Ele brincou com o público a dizer, se até George W Bush conseguiu entender isso — nós também podemos.

A imagem de provocativa não foram os grafes animados de Gapminder – mas um mapa deste mundo – e a afirmação que Nacala é o centro – espécie de umbigo – deste mundo de amanhã. É um ponto fuchral entre África e Ásia, a sua importância estratégica é difícil de sobreestimar.

Mas para Rosling, isso só aumenta torna o desafio maior — ele encorajou ao público pensar além de sistemas de vacinas e intervenções propriamente de saúde pública, a sublinhar a importância de infrastructuras e investimento na agricultura de pequena escala, ambas coisas que beneficiarão a saúde pública.

O que propõe é uma dinámica visão do futuro cheia de cores. (Algo ausente na medonha Zona do Crepúsculo.) Se não temos a liberdade, a criatividade e as ferramentas para fazer o mesmo, então temos de aprendé-las, ir em buscas delas, ou criá-las para nós próprios.