Lembro de ler uma entrevista com Paulo Flores há tempos em que ele retratou com a sua poesia solene a situação de Angola urbana – multidões com os pés na lama mas a sintonizar com TV internacional.

Não encontro a referência agora, mas não interessa porque ele até cantou isso, numa “carta” a mãe, que imaginamos viver na província.

Querida mãe:

“Espero que estejas bem, eu aqui tambem nem te quero por preocupada, mas aqui na banda tem gente que manda tem outros como eu, tem outros que nem sequer porisso, a medicina ainda é o feitiço ou minha mãe, mas a doutrina pelos infieis desiludidos com “santo” que tanto se venera, tantas pernas apressados ultrapasando motorizado,veiculo enquanto frenetico e discipulo desce a cidade contra o ceu do meio dia querendo pagar seu dizimo querendo comprar um lugar no ceu, quebram-se os ritmos crescem-se os gostos, ignorando os desgostos, ignorando a força dos desgostados, misturado aos novos sons das novas periferias, enquanto as telefonias mudam o rostro da cidade, predio, gruas, damas semi-nuas e o progresso atropela com sinceridade a geração da utopia.

Oh mãe o teu filho que um dia sonhou mudar o mundo.

Mutilados cabisbaixo descem os compatriotas e os cidadãos buscando notas no semaforo da nova civilização, oh mãe não vai eu cair em desgraça por não ser o espelho dos conteudos esteris da nova televisão patos, natos, damas com altos saltos frequentando as bodas onde as marias todas passam pela lama do semi- asfalto, primas, filhas, tuas minha do alheio são de quem chegar primeiro como alguem cantou um dia. Querida mãe espero que fiques bem receba aqui tambem o beijo do filho que tanto te ama se precisares so me chamas ou minha mãe, luto para não perder a tua patria ou minha mãe.

Teu filho que um dia sonhou mudar o mundo.”

A letra graça ao blog angola xyami

O Flores posiciona-se aqui como uma ponte cultural entre a geração da ‘libertação’ e uma nova geração. No espaço lusófono ele parece-me único, e atrevo dizer no espaço subsaariana.

Mas ele anuncia serviços dos bancos. Vive uma vida cómoda. Observa com uma certa distância.

A nova geração não tem o luxo do olhar melancólico dele.

Vive na lama e não tem medo de atirar pedras e queimar pneus. Foi o mesmo usuário de Soundcloud “Pequenolino” que chamou a minha atenção ao jovem rapper Extremo Signo e sua faixa de combate lírica “Reportagem”.

Tal como Flores na sua “carta”, ele enquadra a sua crítica com um truque poético, a simular uma entrevista para a rádio estatal em que ele “detona” no Poder. Fala das influências da China, do Brasil, e uma fúria que só cresce

Cito aqui umas frases (mas convido leitores a transcrever o resto)

“bué de problemas aqui mas não muda a situação
sempre confusão rebelião […] se morre o irmão
partem as portas de casa para fazer caixão”
[…]
“a felicidade dura pouco como as obras dos chineses”
[…]
“a esquadra que era escola já não ensina nada
os nem procuram-saldo os mambo-do-gato
para não virar bandidos saem engraxa-sapatos
vivem como ratos não são egos são factos porque alguns até dizem preferiam morrer no parto”
[…]
“ate custa crer que temos administrador nesta merda
culpado também és tu que pegas num kumbo [dinheiro]
que gasta em roupas caras ou em qualquer mambo fútil
gastar em festas parvas para ti é mambo útil
que [?] tem razão a tua existência é inútil”
[…]
“vidas incrédulas flores sem pétulas
só conhecem pai porque nome está na cédula
vivem nas esquinas respiram gasolina”
[…]
“tentam nos distrair com novelas da Globo
mas aqui é há novelas que já não valem a pena ver de novo”
[…]

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