Quero agradecer o comandante da PRM que ensinou-me o significado desta frase.

Ensinou-me hoje no calor do sol das 11h aqui

Tudo começou quando fomos interpelados pela polícia na nossa txopela (tuk-tuk), a voltar duma manhã de distribuir o jornal no Bairro Benfica. Os outros distribuidores tinham descidos nos seus bairros já e estavámos eu e o Motorista a voltar ao centro da cidade.

O Motorista, que tinha queixado da chuva forte cedo de manhã na Matola, teve o azar de tirar uns documentos molhados dos dois plásticos em quem vinham “protegidos” no guarda-luvas.

Logo vi os olhos da polícia esbugalhar tipo cartoon com aquele “apanhámos-te!”, nada de bom humor, nada de tentativa de comprender. Começou logo a comentar sobre a “irresponsibilidade” e a dizer que os documentos não iam prestar.

O Motorista estava sob a observação desta polícia e depois outro – com o habitual AK-47 dos cizentinhos – e vi os olhos do Motorista a fazer um doubletake com a chegada do segundo AK.

Lembro de pensar, e então, não é só estrangeiros incomodados?

Eu preparei-me para estar ali maningue tempo enquanto o Motorista tentou, suando, extrair os documentos sem que ficassem uma papinha de papel inútil. A ansiedade não estava a ajudar em nada.

Pedi ajudar, sugerindo que rasgar o plástico. Com muito cuidado e paciência, foi possível separar todas a folhas. Uma por uma. No sol do dia era só uma questão de minutos de ficarem secos.

Entretanto, o Motorista tinha saido da txopela, e os agentes da PRM começaram a maltratá-lo verbalmente, a sugerir que era um irresponsável, e que era uma “falta de respeito” apresentar papel molhado. A dizer que só um pateta sai de casa e acompanhado (apontando para mim) sem ter tudo em ordem. Estavam a ficar visivelmente irritados que os papeis afinal iam secar e que sobreviveram a molha.

O Motorista estava a manter a calma a pesar dos insultos sofridos. Mas quando ele mostrou os documentos (já secos o suficiente) começaram a atacar-no com novas tácticas. Viram uma data do verso (data da notarização – eram cópias notarizadas) a dizer que os documentos tinham expirado de prazo.

No momento em que o Motorista tentou ensinar sobre o que é notarização, e explicar aquela data como a data de emissão e não a de expiração, chegou um comandante, um senhor com bigode e uns grandes fios de prata.

Começou a ameaçar mesmo. A palavra “algemas” suscitou de imediata uma reacção do nosso Motorista do tipo “eu não sou ladrão” – e a coisa foi piorando.

Entretanto consegui o nosso chefe no telemóvel, e foi nesta altura infeliz que o chefe insistiu que eu tentasse passar o telemóvel ao comandante.

O comandante começou a gritar. “Ele é teu chefe! Não é MEU chefe!” Os gritos eram tão fortes que o Motorista recuou para a txopela. (Eu ainda sentada no banco de trás.) Depois o comandante começou a dizer coisas que realmente são uma vergonha para todos.

Cito palavra por palavra:

Você alguma vez sofreu?

Alguma vez SO-freu?!

Alguma vez sofreu represália?

Vou te chamboquear! Vou te chamboquear!

Esta última frase repitou. Não foi algo que saiu no calor do momento. REPETIU, com prazer, na via pública em pleno dia.

Só depois explicaram-me o que é um chamboko, mas nem era preciso entender qual o instrumento de violência. A mensagem ficou clara – teria ficado claro para um extra-terrestre.

Por sorte, o comandante ficou satisfeito a dispensar ameaças – estas, bem credíveis. Afastou-se, foi interpelar outros motoristas, deixando-nos com seus subordinados.

Passados uns minutos, apareceu o único polícia de transito, aquele com o colete. Ele explicou há uma questão com fotocópias, mesmo que sejam notarizadas e que eles no terreno não souberam de discussões sobre este assunto em curso “lá em cima”. Que por eles, estávamos no erro. Em tons razaoveis e calmos explicou isso. Criticou o Motorista por não “saber falar com polícia”.

Ficámos, preparando deixar a txopela nas mãos deles, como tinham sugerido (antes das ameaças de torturas). Os nossos colegas estavam ao caminho para vir nos buscar.

De repente percebemos que os cinzentinhos todos estavam na sua camioneta, estavam partindo! O policial de trânsito também. Provavelmente ficaram com preguiça de lidar com a txopela no sol de meio dia. Provavelmente já que a humiliação tinha sido completa, ficaram satisfeitos.

Na volta, as palavras do comandante estavam a ecoar na minha cabeça. O Motorista também estava visivelmente pertubado com tudo.

Imaginei as palavras a ecoar na sua cabeça semanas e semanas depois. Imaginei como ele ia contar isso à mulher, aos amigos.

Imaginei os pesadelos ‘normais’ que as pessoas têem todos os dias.

Agora na segurança da minha casa, imagino aqueles que enfrentam o chamboko da PRM. Arrepia-me.