Já escrevi a elogiar o desfile de mulheres lindas vestidas de capulanas nas ruas principais – este desfile existe em parte graças a falta de transportes, que também descrevi.

Como é talvez óbvio, tenho um poder de compra bastante alto aqui. Nos sábados aproveito para ir comprar capulanas. Compro em quantidade. Seria como se eu fosse, sei lá, comprar cinco vestidos de Chanel de vez sem minima hesitação.

Fui relativamente cedo para evitar a turma da tarde que já tem bebido um pouco demais. O Mercado Principal de Lichinga estava a bombar hoje de manhã.

Posso dizer com certeza absoluta que há mais hortículas e frutas a venda que vi ao longo dos últimos dois anos. Pimentas redondas a brilhar, cenouras enormes, montes de tomates bonitos, aguacates, mangas, feijão verde,… Fiquei triste que desta vez não tenho cozinha.

Os vendedores de capulana são na sua maioria homens jovens. Bastante jovens! Alguns pareciam estar a estreiar hoje, sem confiança para medir e cortar o pano. Descobri que a maioria das bancas que vendem capulanas são dos mesmos donos. Mas mesmo assim, há variedade na oferta, e não basta ver uma ou duas. É preciso dar a volta toda, com toda a experiência sensorial do mercado. (Umas quantas ficam ao pé da secção de peixe seco.)

Levo sempre quase tudo de origem da Tanzânia. Aqui custa encontrar pano moçambicano. Dizem que uns Tanzânianos abriram uma fábrica em Nampula. Mas o que distingue os panos de origem de Tanzânia não é só a qualidade da impressão, das cores, mas também a criatividade e exuberância dos desenhos.

Tenho gosto bastante definido. Sei imediatamente o que quero levar normalmente. Gosto de motivos botânicos, com animais, e tambem coisas abstractas que lembro dos anos 70 ou lounge. Fãs de pano finlandês Marimekko morriam três vezes perante estes desenhos. Pensando bem, as melhores capulanas são um cruzamento de elementos da vida cotidiana desta parte de África com Marimekko ou Warhol. (E imagino que estes desenhos pré-data por muito este aestéticos Europeus e Americanos.)

Gosto das castanhas, verdes, e laranjas. Raramento vejo algo com vermelho que gosto. E não compro muitas com fundo branco.
Também estou sempre a procura de capulanas comemorativas. Mas normalmente as capulanas comemorativas desaparecem. Somente as mais chatas, tipo “120 anos da cidade de Maputo” restam. As de Josina Machel, mulher bonita do Samora, esgotam rapidamente. Encontrei desta vez “40 anos do 2º Congresso da Frelimo 1968 – 2008” que foi feita pela grande festa feita no norte do Niassa há um ano atrás em Majeche. Tem a cara sorrindente do Guebuza. Um pano pode também ser artefacto histórico.

O último vendedor queria saber o que pretendo fazer com elas todas. Será que vou amarrá-las? Usar em casa? Mandar fazer ‘um fato’? Tive vergonha dizer que uso para decorar a casa, para prendas, e que ainda tenho tido preguiça demais para arranjar um alfaiate em Brixton, um bairro cheio de panos africanos e alfaiates. Mas resolvi fazer desta vez.

É sempre ingraçado a ver a reacção das pessoas ao monte de capulanas que carrego do mercado. O meu colega de trabalho disse quando vi uma, “HA! Todos os estrangeiros sempre levam aquela!!” Ele tinha inveja da capulana dos 40 anos de Majeche. Outras viram em admiração, apontando para as mais coloridas com grandes motivos de verde e castanha. Uma duma castanha muito “carregada” suscitou vários elógios por outros vendedores no mercado. Todos tem gostos muito específicos em relação a cores e padrões.

Outra coisa que notei é que com os padrões muito grandes e atrevidos, é impossível imaginar como vão ficar até vé-las amarradas.

Homens admiram muito a capulana, mas não tanto como as mulheres. Lembro dum colega de trabalho a contar-me que tentou convidar a mulher jantar fora uma vez, ela foi com muita hesitação, comeu quase em silêncio. Infelizmente para o meu colega, ela espreitou a conta quanto chegou. Ele apanhou naquele noite por que ela disse “eu podia ter comprado duas capulanas com aquele dinheiro!!!”

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